Quando a marca esquece o público e escolhe o palanque.

Como Empresário e Publicitário, observo com crescente preocupação o movimento de marcas e artistas que decidem transformar seus produtos, obras e serviços em extensões de posicionamentos políticos pessoais. Particularmente, não concordo com essa prática — seja à esquerda, seja à direita. Marcas são, antes de tudo, construções mercadológicas: produtos, serviços, experiências e relações de consumo. Artistas, por sua vez, oferecem obras que dialogam com emoções, repertórios e vivências diversas. Quando ambos optam por assumir bandeiras ideológicas explícitas, deixam de dialogar com a totalidade do seu público e passam a falar apenas para um recorte. Isso não é coragem nem engajamento; é uma decisão estratégica questionável.

Do ponto de vista mercadológico, trata-se muitas vezes de uma burrice anunciada. O público não consome uma marca ou uma obra para ser doutrinado, enquadrado ou constrangido a concordar com a visão de mundo de quem está por trás dela. Consome porque se identifica com o valor entregue, com a qualidade, com a experiência ou com a arte em si. Quando empresas e artistas confundem o palco, o produto vira pretexto, e não finalidade. O resultado costuma ser previsível: rejeição silenciosa, boicotes difusos e erosão de reputação — efeitos que nem sempre aparecem no curto prazo, mas cobram seu preço ao longo do tempo.

Em um país profundamente polarizado como o Brasil, esse tipo de posicionamento não eleva o debate público. Pelo contrário: amplia ruídos, reforça trincheiras e transforma marcas — que deveriam ser pontes — em muros. A política pertence ao campo do cidadão, do voto, da consciência individual. Já a marca deve se ater àquilo que promete entregar: consistência, responsabilidade, ética interna e respeito ao seu público diverso. O mesmo vale para a arte quando sua proposta é dialogar amplamente, e não falar apenas para convertidos.

Exaltar marcas e artistas que entendem esse limite é fundamental. Há grandeza em escolher o produto, a experiência e a obra acima da opinião pessoal. Neutralidade, nesse contexto, não é omissão — é inteligência estratégica e respeito ao consumidor. Quando uma empresa ou um criador entende que o protagonista é o público, e não o ego ou a ideologia, demonstra maturidade, visão de longo prazo e, sobretudo, competência. Em tempos de excesso de opinião, saber ficar do lado do público é um diferencial raro e valioso.

Betto Freire – Empresário, Publicitário, Produtor e Autor

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